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Finitude

Anseio por minha última alvorada. Da existência não levarei nada, e só deixarei a dor. *** 21/06/26

O Corte

Não me procure  Onde não estou. Não sou mais A crucificada, A julgada E mal amada. Sou o que Sou. Aqui você  Não entra. Não fará morada, Onde quem manda  É minha espada Que corta quem  Não tem valor. *** 07/06/26

Piloto Automático

​ Sinto que me esforcei  Demais, Que não percebi a vida  Passar. Sinto que me doei  Demasiado A tudo e a todos sem me cuidar. Sinto que não vivi, Só sobrevivi às escolhas Que nem sempre fiz E às relações que precisei  Suportar. *** 07/06/26

​Desafiliada

O álcool disse as verdades Que sua covardia não permitia: Que eu não era sua vontade, Que eu não era sua filha. ​Por muito tempo isso me doeu, Mas hoje dou graças a Deus Por não ser nada sua. Dessa vergonha não morro, Esse mal não me mata. *** 11/05/26

A Sombra

Sou a sombra do filho que não vingou; a substituta do que foi perdido. ​A eterna lembrança de seu primeiro amor: daquele que não embalou nos braços. ​A certeza  de seu primeiro  fracasso materno. ​O luto não vivido. Sua dor e cansaço. *** 11/05/26

Desconstrução

Cansei de viver ciclos, Da vida cronometrada, De dar resposta social. De fingir estar Do lado certo, De que sou cercada De boas pessoas, De que fiz as melhores escolhas, De que sou do bem E nunca do mal. Cansei de ser exemplo E ser criticada, De ser moldada Pra caber na vida dos outros. De amar, E acredite: até de ser amada, Pois todo afeto guarda Um molde de idealização. *** 06/05/26

Suficiente

Não troco afeto, eu o doo. Não forço doçura, a tenho. Não apego, me entrego, Mas sei dizer "não" E caminhar sozinha. ​Sigo no meu passo Sou meu próprio abraço. E nenhum outro É melhor alento pra mim. *** 05/05/26

Momento Sagrado

Cultivar o que aquece, Contemplar o que cura. Cada instante com o sagrado, Do crepúsculo  Ao cair da noite, É dado de graça. ​E essa Graça, Que transborda do peito, Faz do silêncio contemplativo, Oração. *** 27/04/26

Real Valor

Não entendo de marcas, não me julgue superficial. Se compro algo, seja roupa ou eletrônico, é a função prolongada  que conta. ​Não troco o útil pelo novo, nem cobiço o alheio. Não me impressiono com o que a moeda arremata, Só o que não tem preço tem,  para mim, real valor. *** 18/04/26

Sagrado

De você, tudo são boas Lembranças, Nada me causa dor, Lógico, além de sua partida. Ao seu lado, Tudo foi riso, música e Afeto. Nunca me sentia Só, quando estavas comigo. Talvez, não tenha te dado O devido valor, Mas gosto de pensar Que te amei demasiado E te protegi de mim mesma. Porque o seu amor pra mim Era sagrado, E eu não queria corromper O que  a vida me ofereceu de melhor: Você. *** 14/04/26

Preservação

Luzes e sombras No mesmo lugar; Portas abertas, Reflexo solar. Convidam a sair, A buscar. Não me mexo, Não me desfaço. Não me atrevo mais Ao vão esforço. *** 11/04/26

Esteira

​ Não importa o que eu faça, nunca é o suficiente. Sempre correndo,  me esforçando, buscando... Mas toda vez: um, dois, três passos atrás. ​Estou cansada demais agora, velha demais para continuar correndo para um lugar em que nunca chego. *** 01/04/26

Sem filtros

Teus olhos Se acendiam Ao me fitar. Fome, Sede, Desejos de me tomar. ​Nenhuma palavra Dizias, Nenhum outro gesto, Só me olhar. ​E o que tua boca não dizia, O fogo em teus olhos  não cansava de falar. *** 25/03/26

Plenitude de Mulher

Obra de arte da natureza, Olhar que artista nenhum reproduz, Musa, poesia, rainha de si. Sua beleza transcende o tempo  e intriga as multidões. Ela não pede licença, Não busca no outro o que já possui. Sua calma dita a sentença Para quem não tem força,  nem presença. Ela não sente falta de nada, Se acolhe, se ama e se pertence. Ela é o porto e, ao mesmo tempo,  o vento e a corrente. Diante de um ser assim,  só fica quem sabe o que quer, Pois fogo brando não resiste À força de tal mulher. *** 20/03/26 (Série "Poemas de Março")

Estrangeira

Buscar validação: eis o mal do humano. Ser sempre medido pelo olhar alheio. Não importa o que faça, se não recebe aprovação dos outros. Se bonito ou talentoso, bem-sucedido ou filantropo, o que importa é ser aceito e aplaudido por terceiros. ​Ainda bem que desse mal não sofro; nesse mundo sou estrangeira. Não preciso de validação, nem aplausos de ninguém. O que me alimenta é a mente e o coração tranquilos de quem faz sempre o seu melhor. *** 14/03/26 (Série "Poemas de Março")

Exaustão

Passam-se as horas Minuto a minuto.  Sinto um pouco de mim se esvair. Não é que tenha medo. É que eu simplesmente não queria estar aqui. Nada mais faz sentido. E eu não tenho forças para fingir. Um segundo vira uma hora. E cada hora um ano que não quero pra mim. *** 11/03/26 (Série "Poemas de Março")

Grito de Março

Que se foda a romantização, a idealização, a  humilhação, e tudo o que me coloca onde não quero. ​Que se foda seus desejos, suas vontades e sua opinião. ​Que se acabe toda e qualquer ideia do que devo ser, fazer ou ceder. ​Que se cale o que me é imposto: as normas, a s máscaras e o silêncio. Que se materialize apenas o que nasce do meu querer, da minha voz. ​Que se faça do meu grito: Verdade, Revolução e Libertação. *** 11/ 03/ 26 (Série "Poemas de Março")

Soltar

Olhar várias vezes,   até entender   que não sirvo para você,   nem você para mim.   Olhar e não reconhecer,   sentir o amor morrer,   e perceber que não quero  estar mais ao seu lado.   Olhar pela última vez,   apenas aceitar   que é hora de partir,   soltar... e ir.   *** 16/02/26

Teus caminhos

Campos e céus abertos,   Águas rasas,  Ritmo compassado,  Possibilidades,   Novos lugares, Sombras sem rosto,  Novidades,  Labirintos silvestres, Lago azul,   Toque leve, Gota d’água,   Luzes de néon, Coração machucado,  Sons atormentados,   Caminhar sozinho,  Cambalear pelo caminho,   Voltar sem luz.   *** 13/02/26

Aversão

  Sinto ojeriza por conversas vazias, que não me acrescentam ou levam a nada. Sinto repulsa pelo trivial, pelas amenidades sem valor, pelas fofocas regadas a café nas línguas maliciosas do escritório ou de um boteco qualquer no fim da tarde. Sinto embrulhar-me o estômago ao falar ou escutar quem tem por único conteúdo  a vida alheia. Não me interessa quem deu, quem deixou de dar, quem é a noiva ou a “puta do mês”. Não me interessa se o cara é burguês, fanático ou maníaco-depressivo. Se tem carro ou anda a pé, se bebe ou fuma, se é pegador ou esquisito. Gosto das conversas profundas,  da jornada de alguém até algum lugar. Gosto dos intelectuais: letrados, filósofos, nerds que falam sobre literatura,  cultura, geopolítica e dos casos sórdidos que derrubaram dinastias. Gosto de filosofar sobre o cotidiano, de quem cita pensadores  ao falar do tempo, de quem não se resume ao raso  ou ao ralo da humanidade. De quem fala de sexo citando Ligações Perigosas ou O P...